|
Certa feita, Maurílio se viu às voltas com um gato que
lhe rondava o viveiro de periquitos. Noite sim, noite
não, o gato
estava lá, sobre o telhado do viveiro, vez ou outra
sacando um passarinho mais sonolento por dentre as
tramas da tela de arame. Maurílio decidiu tocaiar o
comedor de pássaros e muniu-se de uma arma
desproporcional para o porte da caça, uma cartucheira
calibre 12. Varou madrugas escondido atrás de um vaso
de antúrios, escopeta em punho, até uma fatídica noite,
quando o larápio resolveu aparecer.
O gato subiu no telhado do viveiro. Andar macio, um
certo ar de superioridade; magnânimo e solene, o
carrasco de pobres periquitos que se debatiam por
entre poleiros. Maurílio, ansioso por fulminar o
predador, mal fez a mira e disparou. Besteira.
O estrondo foi ouvido em todo o distrito. O som desceu
para a calha do Atibaia e reverberou - rio acima e rio
abaixo - por quilômetros. Velhinhos e velhinhas
acordaram taquicárdicos; crianças irromperam em choros
e gritos.
Quando baixou a fumaça, Maurílio começou a contar os
estragos: oito periquitos mortos, 17 feridos
gravemente - um dos quais sem uma perna - mais uns
quinze que escaparam, já que a rajada de chumbo e fogo
demoliu o viveiro.
Do gato, nem pó e nem poeira . Nem um tufo de pêlos,
uma gota de sangue, ou pedaço de pele. Um assassinato
sem cadáver. Ou o bicho foi mais rápido que os balaços
e se escafedeu ou, como aposta
o próprio Maurílio, foi desintegrado pela carga de
chumbo, sublimando-se no ar sem deixar vestígios. |