EUGÉNIO de ANDRADE (1923)
Póvoa de Atalaia, Fundão (Portugal).


Acerca de Eugénio de Andrade:

 

     Poeta y prosista portugués nacido en Póvoa de Atalaya, en la región de Fundao, como José Fontinhas. De familia campesina, heredó de ésta el desprecio por el lujo, que según él y en sus múltiples formas es siempre una degradación. Ex funcionario público, con influencias de la cultura griega y oriental, de una profunda cultura literaria y excelente conocedor de la poesía española, no soporta que le atribuyan palabras que no son de su vocabulario personal, defiende la exactitud del lenguaje y no le interesan el dinero o la fama. Admirador de Bécquer, San Juan de la Cruz, Pessoa, Rimbaud o Whitman, ha traducido al portugués a Lorca, Machado y Juan Ramón Jiménez.

 

     En Oporto existe una fundación con su nombre. Su poesía representa fidelidad permanente al espacio instantáneo en que la mirada recupera la visión original del mundo, es simplemente pasión por las cosas de la tierra, en su forma más ardiente y todavía no consumada. Eugenio de Andrade detesta la vida social, le aterroriza el exhibicionismo y huye de las entrevistas y los micrófonos. Es el representante de una izquierda que rechaza siempre la iniquidad y todas las formas de represión.

© epdlp

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POESÍA E PROSA, Vol.1: Os Animais (1990)

 
 
 
Os Animais
 
Vejo ao longe os meus dóceis animais.
São altos e as suas crinas ardem.
Correm à procura duma fonte,
a púrpura farejam entre juncos quebrados.

 A própria sombra bebem devagar.
De vez em quando erguem a cabeça.
Olham de perfil, quase felizes
de ser tão leve o ar.

Encostam o focinho perto dos teus flancos,
onde a erva do corpo é mais confusa,
e como quem se aquece ao sol
respiram lentamente, apaziguados.

 
 

 
 
 
 
 
 

RENTE AO DIZER (1992):

 
 
 
Em redor de Rente ao Chão:
 
 

     Eu já falara nele noutro poema. Dizia então que «o meu amor por esta alminha era materno». Que um homem assumisse poeticamente a maternidade não poderia causar estranheza, mas que tratasse por «alminha» um gato era coisa de que só o diabo se lembraria. De qualquer modo, com ironia ou sem ela (cada qual lê um poema como pode), o que naqueles versos vinha à tona era uma ternura mal disfarçada pelo pequeno persa azul que, num dia de anos, os amigos me trouxeram por terem surpreendido, na maneira como acariciava os gatos deles, uma profunda nostalgia. Realmente, eu tivera uma infância povoada de felinos, e um deles, como contei em A Sereia do Báltico, foi a alegria de muitos dos meus dias. Colhido de surpresa, ora olhava os amigos, ora aquela maravilha que me cabia na mão, com terror e fascinação ao mesmo tempo, pois a partir de então a minha liberdade parecia ameaçada. A minúscula criatura fixava-me com olhos de cobre esfregado de fresco, redondos, imensos, e perante aquele olhar sentia-me à sua mercê — fomos então tratar da instalação. Os amigos haviam previsto tudo: cama, tabuleiro, areias, pratos, alimentos, tudo tinham trazido. Colocámos a cama e as areias no quarto de banho, pratos e tigela foram para a cozinha. Acertámos no nome, e como era do tamanho de uma avelã, e janeiro ia muito frio, acabei por levá-lo para o quarto: primeiro para junto do calorífero, depois para a cabeceira da cama, onde se habituou a dormir, às vezes a minha mão por travesseiro. E fui-o vendo crescer, na certeza de que ao meu lado crescia um exemplar perfeito da sua raça: cabeça robusta, orelhas delicadas, narinas rosadas, pêlo espesso e sedoso; mais exuberante no pescoço e na cauda — era um príncipe oriental que dividia comigo os seus dias, sem coroa e sem mundo para governar, mas de uma beleza que se fosse humana seria insuportável.

     A alimentação requeria cuidados, e eu era incapaz de qualquer repressão: se não lhe agradava uma coisa dava-lhe outra; acabou por ficar caprichoso, avezado ao frango, à pescada, a esses enlatados que exigiam conta e medida, doutro modo apareciam diarreias, preocupações. Informei-me na clínica como deveria alimentá-lo; procurei livros, que não encontrei. Mandei vi-los de Espanha, de França, e no meio dos que me chegaram, e se repetiam até à exaustão, surgiu um de Desmond Morris, que li com avidez. Também reli poemas do Baudelaire, do Eliot, mas os gatos do Baudelaire não eram gatos eram as suas amantes, e os do Eliot eram caricaturas dos seus amigos. Na Colette, no Léautaud, no Aquilino, no Neruda, aí, sim, havia gatos, como também se encontravam nos desenhos de Steinlen.

     Passei a viajar e a sair menos; o Micky habituara-se tanto a mim que, quando saía de casa, vinha à porta e olhava-me de tal maneira que, por vezes, acabava por não sair. Pouco me demorava, é certo, mas nunca deixava de me aguardar no regresso; devia conhecer-me os passos, porque entrasse eu tarde ou cedo lá estava ele e os seus olhos imensos — e tão formosos que não sei mesmo se alguma vez vira outros assim. Eram, como já disse, os olhos de deus. Então roçava a cabeça pelas minhas pernas, erguia-se nas patas dianteiras até aos meus joelhos, pedia-me uma palavra, uma festa. Era a minha vez de responder: pegava nele, aconchegava-o nos braços, prometia-lhe nunca mais o deixar só, passava-lhe a mão pela cabeça, pelos flancos, com a polpa dos dedos acariciava-o debaixo do queixo, enquanto uma espessa e rouca e monótona cantilena ia enchendo a noite de alegria.

     Quase não viajava, pois. Nesse tempo, só me lembro de ter saído duas vezes do país. Da primeira, o Micky ficou em casa dos amigos, mas de início os seus dias foram penosos: não comia, passava o tempo debaixo dos móveis, e só não se lamentava porque era estóico de natureza. Da segunda vez, como sabia do apego que estes animais têm ao lugar onde vivem, ficou sozinho em casa, confiado ao Miguel e à empregada. Creio que passou então melhor, embora sempre estranhado.

     Como já disse, ele dormia enroscado aos meus pés ou à cabeceira: parecia um ouriço- Durante a noite costumava acordar duas ou três vezes; dava então um pequeno passeio pela cama e, invariavelmente, aproximava o focinho húmido da minha cara, via se respirava, e só depois pulava para os pés, enroscava-se para adormecer de novo. De manhã, por volta das oito, começava a brincar com o meu cabelo, a mão delicada ajudada pêlos dentes agudos, até me despertar; quando eu dava sinais de já estar acordado, saltava para o tapete, e sem impaciência aguardava que me levantasse e lhe desse a primeira refeição. Era na verdade a distinção em pessoa.

     Os dias foram passando sem nada a distingui-los uns dos outros; o Micky ajudava-me no trabalho, sentado ao lado da máquina quando escrevia, ou no meu colo quando ouvia música; ou então brincava com uma folha de papel amarfanhada atirada ao chão. Um ano havia já decorrido desde que chegara a casa embrulhado no xalito de lã branca, ou até passara mais, pois a primavera estava outra vez no quintal das traseiras, e pousava na macieira, carregando-a de flor. Uma tarde senti uma agitação nas areias do quarto de banho maior que a habitual. Levantei-me e, com espanto, verifiquei que apesar de muito removidas, nas areias não havia sinais de humidade, ou outros. Voltei ao trabalho, e passados instantes senti agitação igual. Aproximei-me, e depois de o Micky se ter levantado vi que as areias continuavam secas. Procurei então lembrar-me a que horas lhe limpara o tabuleiro pela última vez. Não me recordava de o ter feito nesse dia; olhei o relógio: eram quatro da tarde. Fui à cozinha, a comida estava toda no prato. Entretanto o Micky voltara às areias: não conseguira, apesar do esforço, verter mais que duas ou três gotas de urina. Contra os seus hábitos, saltou para dentro da banheira, arrastando-se desesperado no frio do esmalte, procurando assim aliviar-se. Como nada conseguisse, arrastava-se agora pelos mosaicos, e foi então que os seus olhos encolheram de medo e se meteram pelos meus, a suplicar auxílio — pois como podia viver-se com aquele no cego a estrangulá-lo? Corri ao telefone, chamei um táxi. Como era conhecido na clinica, e invocara urgência, fui imediatamente atendido. O médico procurou acalmar-me, fez-lhe uma algaliação, colheu urina para análise, deu-lhe um pouco de soro, e recomendou que voltasse no dia seguinte; tratava-se de cálculos, coisa frequente na raça, muito susceptível, diria. Voltámos para casa, o Micky comeu um pouco, mas na manhã seguinte não pegou na comida, e quando procurou as areias foi a mesma exasperação: as urinas de as urinas de novo retidas. Voltei à clinica; nas três semanas que se seguiram voltaria lá muita vez; já não era só a retenção da urina o que lá me levava, o Micky deixara de se alimentar, e eu, por mais que quisesse, não conseguia meter-lhe na boca fosse o que fosse. Nem sequer a água, que procurava introduzir-lhe com uma seringa. Pedi o seu internamento, e que se tentasse a operação. Mas estava muito debilitado os pulmões atingidos. Ia vê-lo todos os dias, à noite, quando o serviço da clínica tinha acabado. E lembro-me bem da nossa despedida, o oiro dos olhos embaciado. Eu sempre soube que a beleza era o que havia de mais frágil sobre a terra.

 
 

 
 
 

SAL DA LÍNGUA: Acerca de Gatos (1995)

 
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Acerca de Gatos Sobre els Gats
   
Em abril chegam os gatos: à frente A l'abril arriben els gats: al davant
o mais antigo, eu tinha el més antic, jo tenia
dez anos ou nem isso, deu anys o ni això,
um pequeno tigre que nunca se habituou un petit tigre que no s'avesà mai
às areias do caixote, mas foi quem a l'arena de la caixa, però fou qui
primeiro me tomou o coração de assalto. primer em guanyà el cor d'assalt.
   
Veio depois, já em Coimbra, uma gata Vingué després, ja a Coïmbra, una gata
que não parava em casa: fornicava que no parava a casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive i paria al pinar, no vaig tenir-li
afeição que durasse, nem ela a merecia afecte durador, ni ella el mereixia,
de tão puta. Só muitos anos de tan puta. Només molts anys
depois entrou em casa, para ser després entrà en casa, per a ser-ne
senhora dela, o pequeno persa senyor, el petit persa
azul. A beleza vira-nos a alma blau. La bellesa ens gira l'ànima
do avesso e vai-se embora. del revés i s'esvaneix. 
   
Por isso, quem me lambe a ferida Per això, qui em llepa la ferida 
aberta que me deixou a sua morte oberta que em deixà la seua mort
é agora uma gatita rafeira e negra és ara una gateta vulgar i negra
com três ou quatro borradelas de cal amb tres o quatre taques de calç
na barriga. É ao sol dos seus olhos al ventre. És al sol dels seus ulls 
que talvez aqueça as mãos, e partilhe que potser m'escalfe les mans i compartesca
a leitura do Público ao domingo. la lectura del Publico els diumenges.
   
 

 


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OS DÓCEIS ANIMAIS: Despedida (2004)
 
 
 
Despedida
 
Junho chegara ao fim, a magoada
luz dos jacarandás, que me pousava
nos ombros era agora o que tinha
para repartir contigo,
e um coração desmantelado
que só aos gatos servirá de abrigo.
 
 

 
 
 

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