Eu já falara nele
noutro poema. Dizia então que «o meu amor por esta alminha era
materno». Que um homem assumisse poeticamente a maternidade
não poderia causar estranheza, mas que tratasse por «alminha»
um gato era coisa de que só o diabo se lembraria. De qualquer
modo, com ironia ou sem ela (cada qual lê um poema como pode),
o que naqueles versos vinha à tona era uma ternura mal
disfarçada pelo pequeno persa azul que, num dia de anos, os
amigos me trouxeram por terem surpreendido, na maneira como
acariciava os gatos deles, uma profunda nostalgia. Realmente,
eu tivera uma infância povoada de felinos, e um deles, como
contei em A Sereia do Báltico, foi a alegria de muitos dos
meus dias. Colhido de surpresa, ora olhava os amigos, ora
aquela maravilha que me cabia na mão, com terror e fascinação
ao mesmo tempo, pois a partir de então a minha liberdade
parecia ameaçada. A minúscula criatura fixava-me com olhos de
cobre esfregado de fresco, redondos, imensos, e perante aquele
olhar sentia-me à sua mercê — fomos então tratar da instalação.
Os amigos haviam previsto tudo: cama, tabuleiro, areias,
pratos, alimentos, tudo tinham trazido. Colocámos a cama e as
areias no quarto de banho, pratos e tigela foram para a
cozinha. Acertámos no nome, e como era do tamanho de uma avelã,
e janeiro ia muito frio, acabei por levá-lo para o quarto:
primeiro para junto do calorífero, depois para a cabeceira da
cama, onde se habituou a dormir, às vezes a minha mão por
travesseiro. E fui-o vendo crescer, na certeza de que ao meu
lado crescia um exemplar perfeito da sua raça: cabeça robusta,
orelhas delicadas, narinas rosadas, pêlo espesso e sedoso;
mais exuberante no pescoço e na cauda — era um príncipe
oriental que dividia comigo os seus dias, sem coroa e sem
mundo para governar, mas de uma beleza que se fosse humana
seria insuportável.
A alimentação
requeria cuidados, e eu era incapaz de qualquer repressão: se
não lhe agradava uma coisa dava-lhe outra; acabou por ficar
caprichoso, avezado ao frango, à pescada, a esses enlatados
que exigiam conta e medida, doutro modo apareciam diarreias,
preocupações. Informei-me na clínica como deveria alimentá-lo;
procurei livros, que não encontrei. Mandei vi-los de Espanha,
de França, e no meio dos que me chegaram, e se repetiam até à
exaustão, surgiu um de Desmond Morris, que li com avidez.
Também reli poemas do Baudelaire, do Eliot, mas os gatos do
Baudelaire não eram gatos eram as suas amantes, e os do Eliot
eram caricaturas dos seus amigos. Na Colette, no Léautaud, no
Aquilino, no Neruda, aí, sim, havia gatos, como também se
encontravam nos desenhos de Steinlen.
Passei a viajar e
a sair menos; o Micky habituara-se tanto a mim que, quando
saía de casa, vinha à porta e olhava-me de tal maneira que,
por vezes, acabava por não sair. Pouco me demorava, é certo,
mas nunca deixava de me aguardar no regresso; devia conhecer-me
os passos, porque entrasse eu tarde ou cedo lá estava ele e os
seus olhos imensos — e tão formosos que não sei mesmo se
alguma vez vira outros assim. Eram, como já disse, os olhos de
deus. Então roçava a cabeça pelas minhas pernas, erguia-se nas
patas dianteiras até aos meus joelhos, pedia-me uma palavra,
uma festa. Era a minha vez de responder: pegava nele,
aconchegava-o nos braços, prometia-lhe nunca mais o deixar só,
passava-lhe a mão pela cabeça, pelos flancos, com a polpa dos
dedos acariciava-o debaixo do queixo, enquanto uma espessa e
rouca e monótona cantilena ia enchendo a noite de alegria.
Quase não viajava,
pois. Nesse tempo, só me lembro de ter saído duas vezes do
país. Da primeira, o Micky ficou em casa dos amigos, mas de
início os seus dias foram penosos: não comia, passava o tempo
debaixo dos móveis, e só não se lamentava porque era estóico
de natureza. Da segunda vez, como sabia do apego que estes
animais têm ao lugar onde vivem, ficou sozinho em casa,
confiado ao Miguel e à empregada. Creio que passou então
melhor, embora sempre estranhado.
Como já disse, ele
dormia enroscado aos meus pés ou à cabeceira: parecia um
ouriço- Durante a noite costumava acordar duas ou três vezes;
dava então um pequeno passeio pela cama e, invariavelmente,
aproximava o focinho húmido da minha cara, via se respirava, e
só depois pulava para os pés, enroscava-se para adormecer de
novo. De manhã, por volta das oito, começava a brincar com o
meu cabelo, a mão delicada ajudada pêlos dentes agudos, até me
despertar; quando eu dava sinais de já estar acordado, saltava
para o tapete, e sem impaciência aguardava que me levantasse e
lhe desse a primeira refeição. Era na verdade a distinção em
pessoa.
Os dias foram
passando sem nada a distingui-los uns dos outros; o Micky
ajudava-me no trabalho, sentado ao lado da máquina quando
escrevia, ou no meu colo quando ouvia música; ou então
brincava com uma folha de papel amarfanhada atirada ao chão.
Um ano havia já decorrido desde que chegara a casa embrulhado
no xalito de lã branca, ou até passara mais, pois a primavera
estava outra vez no quintal das traseiras, e pousava na
macieira, carregando-a de flor. Uma tarde senti uma agitação
nas areias do quarto de banho maior que a habitual. Levantei-me
e, com espanto, verifiquei que apesar de muito removidas, nas
areias não havia sinais de humidade, ou outros. Voltei ao
trabalho, e passados instantes senti agitação igual. Aproximei-me,
e depois de o Micky se ter levantado vi que as areias
continuavam secas. Procurei então lembrar-me a que horas lhe
limpara o tabuleiro pela última vez. Não me recordava de o ter
feito nesse dia; olhei o relógio: eram quatro da tarde. Fui à
cozinha, a comida estava toda no prato. Entretanto o Micky
voltara às areias: não conseguira, apesar do esforço, verter
mais que duas ou três gotas de urina. Contra os seus hábitos,
saltou para dentro da banheira, arrastando-se desesperado no
frio do esmalte, procurando assim aliviar-se. Como nada
conseguisse, arrastava-se agora pelos mosaicos, e foi então
que os seus olhos encolheram de medo e se meteram pelos meus,
a suplicar auxílio — pois como podia viver-se com aquele no
cego a estrangulá-lo? Corri ao telefone, chamei um táxi. Como
era conhecido na clinica, e invocara urgência, fui
imediatamente atendido. O médico procurou acalmar-me, fez-lhe
uma algaliação, colheu urina para análise, deu-lhe um pouco de
soro, e recomendou que voltasse no dia seguinte; tratava-se de
cálculos, coisa frequente na raça, muito susceptível, diria.
Voltámos para casa, o Micky comeu um pouco, mas na manhã
seguinte não pegou na comida, e quando procurou as areias foi
a mesma exasperação: as urinas de as urinas de novo retidas.
Voltei à clinica; nas três semanas que se seguiram voltaria lá
muita vez; já não era só a retenção da urina o que lá me
levava, o Micky deixara de se alimentar, e eu, por mais que
quisesse, não conseguia meter-lhe na boca fosse o que fosse.
Nem sequer a água, que procurava introduzir-lhe com uma
seringa. Pedi o seu internamento, e que se tentasse a operação.
Mas estava muito debilitado os pulmões atingidos. Ia vê-lo
todos os dias, à noite, quando o serviço da clínica tinha
acabado. E lembro-me bem da nossa despedida, o oiro dos olhos
embaciado. Eu sempre soube que a beleza era o que havia de
mais frágil sobre a terra.